Quinta-feira, Junho 18, 2009

Se sentes que não existes

Se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca

se tu não existes,
a tua solidão muito menos.



Brenda Ascoz

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Tatuagem



"Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.

A pele serve de céu ao coração."

Luís Miguel Nava, "O Céu"
* Foto retirada da Internet

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

As Estrelas - Narrativa de um Pastor Provençal


“No tempo em que eu guardava gado no Luberon, estava semanas inteiras sem ver vivalma, sozinho na pastagem com o meu cão Labri e as minhas ovelhas. Lá de longe em longe, o eremita do Monte Ure passava por ali á procura de ervas medicinais, outras vezes eu via a cara enfarruscada de algum carvoeiro de Piemonte (…). Por isso, de quinze em quinze dias, quando ouvia no caminho os guizos da mula da nossa quinta que ia levar-me as provisões da quinzena, e via aparecer a pouco e pouco, acima da encosta, a cabeça esperta do moço da quinta ou a touca berrante da velha tia Norade, sentia-me verdadeiramente feliz. Pedia-lhes que me contassem as novidades lá de baixo, os baptismos e os casamentos; mas o que mais me interessava era saber o que era feito da filha dos patrões, a menina Stéphanette, a rapariga mais linda dez léguas em redor. Sem mostrar demasiado interesse, informava-me se ela ia muito a festas, a serões e se continuava a ter muitos pretendentes; e a quem me perguntar o que isso me importava, a mim, pobre pastor da montanha, eu respondo que tinha 20 anos e que a Stéphanette era a coisa mais linda que eu tinha visto em toda a minha vida.

(…) Que linda que ela era! Os meus olhos não se cansavam de a olhar. È verdade que nunca a tinha visto de tão perto. Às vezes, no Inverno, quando os rebanhos desciam para a planície e eu voltava á quinta para cear, ela atravessava a casa a correr, sem mesmo falar aos criados, sempre bem arranjada e um pouco orgulhosa… E agora ei tinha-a ali na minha frente, só para mim. Não era de perder a cabeça?

(…) Ela olhou outra vez para o alto, com o queixo apoiado nas mãos, envolta na pele de carneiro como uma pastora de estrelas:
- Quantas estrelas! E como é bonito! Nunca tinha visto tantas… e sabes os nomes delas Pastor?
- Sei sim, Patroa… Olhe! Mesmo por cima de nós é a Estrela de Santiago (Via Láctea). Vai desde a França direitinha á Espanha. Foi S. Tiago da Galiza quem a traçou para indicar o caminho ao valente Carlos Magno quando ele fazia guerra ao Sarracenos. Mais além, tem o Carro das Almas (Ursa Maior) com os seus quatro eixos resplandescentes. As três estrelas de lá são as Três Mulas e aquela muito pequenina ao pé da terceira é o Cocheiro. Vê em toda a volta esta chuva de estrelas a caírem? São as Almas que Deus não quer no Céu (…) Mas a estrela mais bonita de todas, Patroa, é a nossa, a Estrela do Pastor, que nos ilumina ao alvorecer quando saímos com o rebanho, e á noite quando o recolhemos. Também lhe chamamos Magalona, a bela Magalona que persegue Pedro de Provença (Saturno) e se casa com ela de sete em sete anos.
- O quê Pastor, as estrelas também se casam?
- Pois casam, Patroa.
E quando tentava explicar-lhe o que eram esses casamentos, senti qualquer coisa fresca e suave pousar levemente no meu ombro. Era a cabeça dela, cheia de sono que se apoiava no meu ombro, num rogaçar de fitas, de rendas e de cabelos ondulados. Ficou assim, imóvel, até que os astros do seu empalidecerem, apagados pela luz do dia.
Eu via-a dormir, um pouco perturbado no fundo do meu ser, mas santamente protegido pela noite límpida que nunca me trouxe senão ideias, pensamentos puros. Em nossa volta, as estrelas continuavam a sua rota silenciosa, dóceis como um imenso rebanho; e por instantes, julguei que uma dessas estrelas, a mais frágil, a mais brilhante de todas, que se perdera no caminho, tinha vindo repousar no meu ombro para dormir.”



Alphonse Daudet, “Cartas do meu Moinho”, Editorial Verbo, 1978


* Imagem retirada da Internet


Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

Pensamento Abstracto

Todos os olhos estão em mim enquanto durmo.
Todas as mãos me tocam quando acordo.
O sono e as mãos pegajosas, a pele gélida, áspera, com escamas.
Ouço a língua sibilar e nesse momento rastejo como um réptil.
Na parede uma tela de formas indistintas, chora, grita,
até me ensurdecer. Mastigo vidros, pequenos vidros brilhantes,
que se estilhaçam contra os meus dentes,
com um ruído perturbador, que me ferem o céu da boca e sabem a sangue.
E eu gosto.
Isto não é um sonho. Esta é a minha realidade paralela, a minha alternativa ao não Amor, á não vida, ao silêncio branco e cortante que já ninguém suporta.

Deste lado, é noite, chove incessantemente e o tempo é um gigante invencível.



* Imagem retirada da Internet

Terça-feira, Outubro 14, 2008

Não se aprende nada com os clássicos


Não durmo
há 3 noites e
3 dias
e os meus olhos estão mais
vermelhos do que brancos;
rio-me ao espelho,
e estive a ouvir
o tic-tac
do relógio
e o gás do meu aquecedor
tem um cheiro
quente
e pesado, junto
com o som
dos carros,
carros presos
como ornamentos
à minha cabeça, mas
eu li
os clássicos
e no meu sofá
está uma puta
encharcada em vinho
que ouviu pela
primeira vez
a 9ª de Beethoven,
e educadamente
adormeceu
aborrecida.

Pensa, meu velho, disse-me ela,
com a tua inteligência
ainda és capaz de ser o primeiro homem
a acasalar
na lua.


Charles Bukwoski, “The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills” (1969), versão de Manuel A. Domingos.


* Foto "New and old books" de Phothographertech retirada da Internet

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Um dia



Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.


Sophia de Mello Breyner Anderson


* Foto de Hiden Target retirada da Internet

Terça-feira, Agosto 05, 2008

(A Carta da Paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,que à imagem do mundo
aberta de têmpora a têmpora ateia a sumptuosidade do coração.
A demência lavra a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam as estações até ao cimo, nas sedas que se escoam com a largura
fluvia lda luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas e o silêncio todo branco.
Os dedos. A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia jugular talhando a garganta.
Nesta mão que escreve afunda-se a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas obscuras,
essa lua tece as ramas de um sangue mais salgado e profundo.
E o marfim amadurece na terra como uma constelação.
O dia leva-o, a noite traz para junto da cabeça: essa raiz de osso vivo.
A idade que escrevo escreve-se num braço fincado em ti,
uma veia dentro da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada no espelho. Ou ainda a fenda na fronte por onde começa a estrela animal. Queima-te a espaçosa desarrumação das imagens.
E trabalha em ti o suspiro do sangue curvo, um alimento violento
cheio da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força desde a raiz dos braços a força manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda fechada, a límpida ferida que me atravessa desde essa tua leveza sombria como uma dança até ao poder com que te toco.
A mudança. Nenhuma estação é lenta quando te acrescentas na desordem,
nenhum astro é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros do teu vestido. As palavras que escrevo correndo entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso, arterial. E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado. A paixão é voraz, o silêncio alimenta-se fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no cometa que te envolve as ancas
como um beijo. Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio o abraço da nossa morte.
Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas, entre as mãos sumptuosas.A doçura mata.
A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria.
És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consanguíneas,
luzimos de um para o outro nas trevas.

Herberto Helder
PHOTOMATON & VOX
Assírio & Alvim
1995
* Foto retirada da Internet