quarta-feira, junho 29, 2016

Eu não sou assim

Eu não sou assim.
Não tenho o que procuras em todas essas mulheres,
bonecas de pele acetinada e cabelos lisos,
com pestanas falsas de gazela perdida,
radiantes dentro dos seus vestidinhos de festa, 
cor-de-rosa e amarelos com folhos e laços,
ofuscantes com o brilho das suas joias de vidro.

Eu não sou assim.
Mas tu nunca me viste nas minhas melhores noites,
com as minhas pernas esguias espreitando por saias curtas,
os seios tímidos em decotes profundos, a maquilhagem assimétrica
e os cabelos negros, sempre ligeiramente despenteados.
Tu olhaste-me sempre na penumbra, nesse limbo cinzento,
que fica entre a realidade e a ficção. 
E eu estava quase sempre nua.

Eu não sou assim.
Eu sou apenas esta mulher inquieta, vulnerável a todas as tuas sílabas,
Sentada na beira da cama à espera da luz do dia,
Despojada de tudo
Mas cheia de Ti.


                                           *Foto retirada da Internet

terça-feira, setembro 09, 2014

Manifesto

Orgulho-me de todas as decisões que tomei, mesmo aquelas que mais tarde se revelaram como menos certas ou pouco inteligentes. A bem da verdade, doeram-me quase todas. Não me arrependo de tudo o que dei de mim aos outros, mesmo quando não recebi em troca na mesma proporção de entrega e verdade. 

Sei que todas as coisas têm um lugar no mundo, uma razão de existir e de acontecer, que há um segundo exato em que tudo faz sentido e ao qual não podemos fugir. Sei que o tempo passa demasiado depressa e deixa muitas marcas no Corpo e na Alma e que há coisas que, mesmo quando nos libertamos delas, não se esquecem. E ainda bem. 

Agradeço a oportunidade que a vida me dá, de todos os dias, me apresentar a este mundo louco e em constante mudança, como alguém que está pronto para aprender mais uma nova lição, para encontrar um novo caminho. Agradeço a possibilidade de abraçar as pessoas que Amo, que me fazem sorrir e me aliviam a dor. Hoje retiro do meu vocabulário o “para sempre” e o “nunca mais” e reescrevo convictamente o “talvez”, o “é possível”, o “quem sabe”. 

Decidi que nada pode ser maior nem mais forte do que o meu livre arbítrio e do que a minha determinação de ser e fazer o que eu quiser. Viver a vida com o coração e os olhos abertos, sem dores de consciência nem arrependimentos. Como deve ser.

Tenho dito.

sexta-feira, agosto 22, 2014

Os Amantes sem afeto




Continuo a abandonar-me a ti mesmo sabendo que já não estás.
Em tantas noites incertas, sinto ainda a tua respiração presa ao meu peito, o teu toque de mar salgado nos meus dedos.
Há mesmo longos momentos em que te vejo assim, dormindo ao meu lado, a mão sobre o meu seio esquerdo, as pernas ligeiramente fletidas e o bater do teu coração como uma brisa ligeira.
Entrelaçados como nunca estivemos, genuínos como nunca fomos.
Os Amantes sem afeto. Um Amor sem fôlego.

E nada dói mais do que isto: o nosso tempo sem história e a minha janela aberta para a tua prisão de muros altos.

segunda-feira, junho 16, 2014

I will end with broken hands

Entre a tua casa



"Entre a tua casa — onde estive —, e a minha — onde gostava que pudesses estar —, existe um ponto no meio. Um ponto a caminho. No caminho. Se me apanhares aí, nesse sítio, poderei então contar-te o segredo, desmascarar tudo, e desmascarar-me. Nesse sítio impossível onde é possível respirarmos os dois ao mesmo tempo, quero pertencer ao teu mundo. De forma definitiva e perdida. Não interessa o resto. Interessa o que eu tiver para te contar, nesse instante, e o que tu quiseres que eu elimine de mim. Deitarei fora tanto da minha vida real quanto a tua vontade de ver um espectáculo ditar. E depois será para sempre. Até me fartar. Até te fartares… E a coisa morrer de acordo com as leis naturais do universo. Todas".


Rogério Nuno Costa

domingo, novembro 25, 2012

Do ato de desistir

No tempo em que existias eu não te quis. Por dentro de redes de espuma e espelhos nublados nós perdemo-nos no escuro, afogámo-nos na areia movediça do deserto. Eu não me debati. Perder-te fazia parte do plano, não foi um acidente inesperado. Lutar tornou-se desnecessário, um esforço hercúleo que não fazia sentido porque nunca teria sucesso. A minha decisão foi desistir. É fácil desistir quando todos os teus dias são cinzentos, quando toda a gente já te deixou á espera de uma resposta, quando todas as tuas palavras ecoam no espaço vazio, quando a tua vida é uma constante repetição de um filme antigo que toda a gente já viu um milhão de vezes. Desistir é o certo, a única coisa inteligente a fazer. E não digo, desistir por hoje. Desistir é para sempre. É definitivo. É irrefutável. Senão não é desistir, é apenas fazer uma pausa, dar uma trégua á realidade. É dar uma oportunidade á esperança. E isso é proibido. Do ponto onde me encontro hoje, ao olhar para trás percebo que desistir foi sempre fácil. Eu não acredito no tempo porque ele engana-nos, prega-nos rasteiras, ilude-nos com promessas de dias soalheiros que nunca chegam, enquanto olhamos o céu cinzento e nos abrigamos da chuva.
Nada é tão certeiro como o ato de desistir.

domingo, outubro 21, 2012

Sair do armário

Acordo com uma sensação esquisita. Um cheiro estranho, um desconforto. O meu tecido enrugado, esgaçado pelo tempo de uso, não reconhece a cama, sente-se um peixe fora de água. Acho que me mudaram de gaveta. Aspirei o ar: confirma-se, já não sinto o aroma habitual a lavanda, que me embala todas as noites. Pânico: se não é a minha gaveta, que sítio é este?

Olho em volta, na penumbra, e só vejo sombras indistintas. Definitivamente não é uma gaveta. É certamente um armário, ou um guarda-roupa. É alto, largo, tem espaço. Não me sinto esmagada contra outro tecido esquecido e velho. Sinto-me livre, solta, como que pairando no ar. Percebo que estou pendurada num cabide. Facto inédito: não faz nenhum sentido pendurar uma velha camisa de noite, gasta, usada, velha, debotada, num cabide dentro de um armário…

Será que me deram para alguma instituição de caridade? Será que esta é a fila para o extermínio dos tecidos usados? Á medida que me habituo às sombras, percebo que á minha volta estão vários vestidos. Longos e curtos. Pretos e coloridos. Com apliques e lantejoulas. Vestidos de festa. Novos em folha. Um verdadeiro desfile de Haute-Couture.

Algo está muito errado neste cenário. E o erro só posso ser eu, velho monte disforme de tecido, pendurada dentro de um armário, entre jóias de vestuário. Isto não bate certo. Se calhar já morri e este é o Céu das camisas de noite…depois de uma vida inteira de uso doméstico e comezinho, são recompensadas com um lugar num Closet de uma estrela de Hollywood ou de uma cantora famosa. Esta hipótese começava já a ganhar volume no meu pensamento e eu já quase acreditava nela piamente, quando alguém abre a porta do armário e me retira com força dizendo: “mas como é que eu fui pôr a camisa de noite no armário dos vestidos? Onde é que eu ando com a cabeça!”

Pronto, dúvida esclarecida. Um simples engano. Depois de ser cuidadosamente dobrada, volto para a minha caminha de pijamas fofos e almofada de lavanda. A minha casinha. Lar doce Lar.


* Foto retirada da Internet

terça-feira, julho 24, 2012

Conselhos da Avó

Alta. Definitivamente, sou alta. Ter 177 cm para uma mulher já é bastante. Ou pelo menos, mais do que é habitual. Penso que é a primeira característica com que toda a gente me descreve, aquela que é tão óbvia que é impossível ignorar. Depois os cabelos. Castanhos escuros, quase pretos, longos, espessos e indomáveis. Impossíveis de controlar. Com vida própria. Os olhos são de tamanho médio, de um castanho bastante escuro. Há quem diga que são tristes. Eu digo que têm dias. O nariz ocupa demasiado espaço na cara. É um pouco “abatatado”, marca de família. Todos temos o nariz igual. Não engana. A boca é pequena e os lábios são finos. Não são bonitos. Falta-lhes aquele volume que os torna apetecíveis. Não sou demasiadamente gorda nem demasiadamente magra, embora me sobre carne nalguns sítios indesejáveis. O peito podia ser mais cheio, mas não me queixo. Apesar de tudo, não é feio. As mãos são esguias, com dedos frágeis e finos. As pernas são longas, cheias mas até bastante elegantes e bonitas. Diria que não estão mal.

A minha Avó costumava dar-me conselhos de como eu me poderia tornar uma mulher mais bonita. Fazia-lhe alguma confusão a minha juventude pouco enfeitada, desprovida de saias, cores garridas e acessórios. Dizia-me muitas vezes que era impensável uma rapariga nova como eu andar sempre vestida de preto e sempre enfiada numas calças de ganga. Ela nasceu no princípio do século XX e, nesse tempo, as mulheres queriam-se cheias de vida e enfeites, brincos e colares de pérolas e saias bonitas (mas decentes). Eu saía totalmente fora desse ideal feminino, e ela aconselhou-me muitas e muitas vezes sobre como devia usar saias não muito justas para valorizar as minhas pernas compridas mas não marcar demasiadamente a forma redonda das ancas, de como devia usar brincos compridos para me compor o rosto oval ou como devia por um colar que me acentuasse o pescoço esguio. Desafiava-me a usar roupas de cores vivas, porque isso me realçava a tez morena e a comprar soutiens que me arrebitassem o peito pequeno. E queria que eu sorrisse mais. Afirmava que não existia melhor virtude numa mulher do que um belo e franco sorriso. Morreu aos 98 anos de idade e eu nunca a ouvi verdadeiramente. Penso que nunca prestei atenção devida aos seus sábios conselhos. Mas devia. Sei-o hoje.